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  • Dra. Cláudia Klein

A Pandemia e o Transtorno Depressivo Maior

Além do sofrimento físico que a Covid-19 provoca, que altera substancialmente a função pulmonar, cardíaca e de outros órgãos, consequências no campo psicológico também são muito comuns, como já venho tratando por aqui.


Hoje, vou abordar especificadamente o Transtorno Depressivo Maior (TDM) e as suas consequências. Nos últimos anos, a prevalência do TDM, ao longo da vida, tem sido estimado entre 11% e 15% da população mundial, entretanto vários países relataram o aumento desses números devido à pandemia e suas implicações.


A exposição crônica a uma situação de ansiedade, como a que estamos vivendo, constitui um dos principais fatores de risco para o aumento do transtorno depressivo maior. Na China, onde a pandemia originou, foi reportado que 16,5% da população geral apresentava sintomas depressivos moderados a severos, enquanto 28,8% relatava sintomas ansiosos moderados a severos, nos estágios iniciais.


Após meses do início da pandemia, quando a disseminação começou a acontecer nos Estados Unidos, um estudo com 5.400 indivíduos estimou que 30,9% dos adultos apresentavam sintomas ansiosos ou depressivos associados à ocorrência da pandemia!


Infelizmente, o mesmo estudo relatou que 13% dos participantes iniciaram ou aumentaram o uso de substâncias (incluindo álcool e cannabis) e apresentou que 63% dos indivíduos entre 18 e 24 anos relataram sintomas de ansiedade ou depressão e que 25% deles chegaram a pensar em suicídio nos últimos 30 dias.


No Brasil não foi muito diferente... Um estudo feito pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) estudou 1.460 brasileiros entre março e abril de 2020, e apontou que os casos de transtorno depressivo maior praticamente dobraram desde o início da quarentena (saltando de 4,2% para 8,0%).


Em um outro estudo, que envolveu a análise de prontuários eletrônicos de mais de 69 milhões de pacientes, incluindo 62 mil casos de infecção pelo novo coronavírus, observou-se que, em pacientes sem história prévia de transtornos mentais, a Covid-19 foi associada a um aumento da incidência de diagnósticos psiquiátricos (principalmente para transtornos de ansiedade, TDM, insônia e demência) em três meses após a infecção.


Adicionalmente ao aumento de TDM na população geral, os pacientes que necessitaram de internação pelo coronavírus parecem apresentar um maior risco de terem sequelas psiquiátricas do que aqueles que não precisaram ficar internados.


De maneira geral, os idosos, os pacientes com doenças clínicas e psiquiátricas preexistentes e os profissionais de saúde na linha de frente ao combate à pandemia são grupos de risco para TDM.


Pacientes com transtornos mentais previamente diagnosticados apresentaram um aumento de 65% na incidência de Covid-19. Isso pode ser devido a fatores não específicos dos transtornos mentais, como problemas cognitivos, pouca consciência dos riscos envolvidos, dificuldade aumentada para seguir recomendações de distanciamento social, entre outros fatores. Outra hipótese é que a vulnerabilidade à Covid-19 poderia ser aumentada pelo estado pró-inflamatório, que ocorre nos indivíduos com TDM.


Os profissionais de saúde estão particularmente expostos à ameaça de transmissão, por causa de seu trabalho de linha de frente com pacientes com altas cargas virais, estresse severo, alta carga emocional, longas horas de trabalho, preocupação em ser infectado ou infectar seus familiares, falta de suporte adequado no ambiente de trabalho e falta de tratamentos eficazes. Tudo isso acarreta alto risco de exaustão física e mental para os profissionais de saúde.


Através de diferentes pesquisas, conduzidas com profissionais da saúde que atuaram na linha de frente, encontraram-se prevalências aumentadas (quando comparadas com profissionais que não estavam na linha de frente) de estresse psicológico (15,9%), sintomas ansiosos (16%), sintomas depressivos (34,6%) e insônia (47,8%).


O que aumenta o risco de depressão na pandemia?


1. Demográficos: Sexo feminino, viver sozinho, baixo nível educacional, ser estudante, não ter filhos ou ter mais de dois, viver em áreas urbanas, baixo status socioeconômico.


2. Saúde: Doenças diagnosticadas, recentemente ou no passado, incluindo transtornos mentais e uso de substância como álcool e drogas.


3. Psicológicos e sociais: Má qualidade do sono, percepção de carga de estresse elevada, falta de conhecimento sobre a pandemia, não adoção de medidas cautelares, suporte familiar deficiente, conflitos interpessoais, uso frequente de mídias sociais, dificuldades em elaborar lutos por diferentes perdas (financeira, rotina, saúde).


4. Emprego: Atuar profissionalmente na linha de frente e ter mais de 10 anos de trabalho.


5. Violência: Crianças e mulheres submetidas à situações de violência e maus-tratos.




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