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  • Dra. Cláudia Klein

Felicidade e a expansão da consciência

Já era tarde, o consultório estava lotado e eu havia atendido muitos pacientes. A última consulta me ensinou muito mais sobre a vida do que eu poderia imaginar.


Ana, uma moça de 30 anos, entrou em uma cadeira de rodas, acompanhada pela tia. Olhar triste, vazio, relatou-me ter perdido o pai no mesmo acidente em que teve sua perna amputada. Estava deprimida, sem vontade de viver. Não tinha se casado, não tinha filhos e nem perspectiva de futuro.


Tentei argumentar: em vão. Na verdade, tentei colocar-me no lugar dela, mas talvez também não tivesse achado forças... Indiquei um psiquiatra e uma terapeuta. Senti-me frustrada, pois a dor daquela moça era enorme.


Todos os dias nós, médicos, lidamos com casos extremos; eu, como Neurologista, ao lado da minha colega dra. Regina Biasoli, como Hematologista, nos deparamos com tumores no cérebro, leucemias, isquemias, sequelas graves... muitas vezes na tênue linha entre a vida e a morte.


Mas ali, naquela sala, no final do dia, eu não via vida. Quando já não sabia mais o que dizer, meu celular tocou. Nunca atendo em meio a uma consulta, mas eu precisava aliviar um pouco o estresse e respirar melhor, então considerei atender. Era minha mãe. Nem me lembro o que ela queria, não ouvi direito, mas notei que, ao fundo, meu cachorro começou a latir.


Desliguei o celular e meu olhar buscou de novo a ressonância com a “dor” mas, surpreendentemente, percebi um outro semblante naquela moça e, até quem sabe, um sorriso. Foi então que ela disse:


- Nossa, você tem um cachorro? Eu sempre quis ter um e nunca pude; meu pai era alérgico.


Comentei sobre adoção. Nós, que amamos os animais, sempre nos entusiasmamos quando um abandonado ganha um lar. Achei que podia ser despertar algum interesse...


As duas foram embora.


Permaneci angustiada por alguns dias, pensando naquela paciente e na vida dela. Três meses depois, novamente no último horário, Ana entrou na minha sala. A luz do seu olhar era completamente diferente de quando a conheci; mal notei a cadeira de rodas.


Contou-me que foi ao CCZ e apaixonou-se por um cachorro que estava prestes a ser sacrificado; tinha tido a pata amputada após um atropelamento.


- O resgate desse animal mudou minha vida. Eu não podia deixar que o matassem.


Ana foi me agradecer e mostrar a plaquinha de identificação do cachorro, com o nome YURI, que significa benção da luz, nome vindo do Hebraico. Se é coincidência ou destino, eu não sei: YURI é o nome do meu cachorro, que ela havia ouvido latir pelo telefone.


- Dra., você me ensinou que a FELICIDADE vem com o encontro da SIMPLICIDADE.


Além de emocionar-me, o que consegui falar foi:


- Na verdade, Ana, foi você quem mudou a sua própria percepção de consciência.


Ana percebeu o que hoje os neurocientistas estão exaustivamente estudando e tentando explicar por meio de mapeamento do cérebro:


Tudo indica que o cérebro pode ser treinado na idade adulta e até mudar a sua organização interna.


Esta é a conclusão do estudo de Richard Davidson, na Universidade de Wisconsin. Sua equipe fez medições precisas de voluntários com mais de 10 mil horas de meditação e percebeu que este estado contemplativo estimulava zonas do cérebro associadas às emoções, nomeadas “positivas”, como aquelas que nos habituamos a ligar a estados de felicidade.


Segundo Davidson, a meditação pode mudar as funções cerebrais de forma durável. Estes estudos começam a responder à seguinte pergunta: será que não são os pensamentos que produzem alterações químicas e impulsos elétricos?


Os cientistas, dentro deste novo paradigma revolucionário em que a realidade se manifesta de acordo com nossa consciência, começaram a estudar este efeito cascata, também conhecido por “Efeito Carambola”, assim denominado pela Dra. Vera Lemgruber.


O Efeito nada mais é do que a Reformatação dos circuitos cerebrais através da reaprendizagem e reinterpretação das experiências passadas levando a um novo trajeto para as percepções e pensamentos. Isto forma novas redes de conexões neuronais.


Em 2001, Brody et al. mensuraram o cérebro, por ressonância funcional e por PET SCAN (medidores do metabolismo), de pacientes com depressão no início e no final de 12 semanas de tratamento com Terapia Cognitivo Comportamental. Ao término do período, mantiveram-se ativadas áreas cerebrais de “felicidade”, mesmo tempos depois de terminado o tratamento terapêutico; o que não ocorreu em pacientes que suspenderam seus antidepressivos, mas não fizeram nenhum trabalho terapêutico.


Em estudo publicado no periódico The Archives of General Psychiatry, nove pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) foram submetidas a um método de investigação de imagem cerebral, chamado de PET Scan. Veja a figura ao lado: uma comparação de antes e depois de 10 semanas de terapia cognitivo-comportamental. Três dos pacientes mostraram pequenas mudanças, mas seis melhoraram substancialmente. Suas imagens evidenciaram duas alterações significativas na função cerebral: uma delas estava estritamente relacionada à atividade de certas estruturas cerebrais. “Nós sabemos que, no transtorno obsessivo-compulsivo, quatro estruturas centrais estão interconectadas”, disse Dr. Jeffrey Schwartz, psiquiatra que conduziu o estudo do Neuropsychiatric Institute of the University of California, em Los Angeles. “Mas em pacientes que respondem ao tratamento, essas estruturas podem operar independentemente, como nos casos de pessoas sem o transtorno.”


Sabe quem é o homem mais feliz do mundo? Matthieu Ricard.


Aos 31 anos, o então biólogo molecular decidiu abandonar a sua vida de investigador e seguir a religião budista. Hoje, aos 61 anos, tornou-se o assessor de Dalai Lama, líder espiritual dos budistas tibetanos.

Antes de optar pelos Himalaias, o monge fizera um doutoramento em genética molecular e trabalhara ao lado de François Jacob, Prêmio Nobel da Medicina (em 1965). Foi nessa altura que escolheu a religião, após ter lido textos budistas que o impressionaram.


Talvez Matthieu Ricard tenha compreendido, muito antes que os neurocientistas, que ser feliz é um estado interno. Não é difícil entender que a ansiedade, a frustração, o medo e o apego nos impedem de manter a felicidade devido à desestruturação do sistema de recompensa do córtex pré-frontal.


Muitas vezes nos frustramos por passarmos muito tempo programando um futuro que acaba não acontecendo exatamente do jeito que sonhamos. Por isso, as pessoas mais felizes aprenderam a moldar seus sonhos e a viver no presente.


O futuro é a ressonância do hoje.


Lá dos Himalaias, também, vem o conceito Butanês de FIB (Felicidade Interna Bruta). Este pequeno país, o Butão, deu um passo histórico: aplica o conceito de FIB em suas políticas estrategicas e de planejamento; ou seja, a felicidade já é tema de política pública.


A FIB apresenta nove dimensões: bom padrão de vida econômica, boa governança, educação de qualidade, boa saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, gerenciamento equilibrado do tempo, e bem-estar psicológico. Todas elas devem ser vistas como metas reais de um mundo melhor.


A partir delas, é possível repensarmos as nossas prioridades e entendermos que conseguimos reordenar a nossa mente para alcançarmos a plena felicidade.




Então, querida Ana, obrigada pelo seu ensinamento. Abaixo, um poema que dedico a você e a todas as pessoas que buscam um sentido maior na simplicidade da vida:


“Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti. Não indague se nossas estradas, tempo e vento desabam no abismo.

Que sabes tu do fim?

Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.

No deslumbramento da ascensão, se pressentires que amanhã estarás mudo, esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta.

Canta, canta.

Talvez as canções adormeçam a fera que espera devorar o pássaro.

Desde que nasceste não és mais que o voo no tempo rumo aos céus? Que importa a rota!

Voa e canta enquanto existirem as asas."


- Menotti del Picchia




Texto também disponível em: https://www.minhavida.com.br/saude/materias/11560-felicidade-vem-com-o-encontro-da-simplicidade

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