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  • Dra. Cláudia Klein

O Aumento da Ansiedade na População

Este último ano foi de muitas mudanças rápidas, abruptas e, na maioria das vezes, inesperadas. O distanciamento social, as restrições para sair de casa participar de atividades sociais, e para trabalhar, impactaram milhões de pessoas. Mesmo os que puderam manter os seus empregos, trabalhar de casa impôs novas rotinas.


A pandemia afetou a todos e a nossa saúde mental fica em claro risco de desequilíbrio. Nesta situação, o estresse pode funcionar como gatilho mesmo para uma pessoa que nunca teve transtorno mental.


Apesar de o aumento de sintomas de ansiedade e depressão na população já ser esperado diante de um episódio como este, os números e o cenário que enfrentamos chama a atenção.


Um estudo comparou as taxas de prevalência de transtorno de ansiedade e transtorno depressivo em amostras nacionais nos EUA, antes e durante a pandemia. Foram comparados os dados de 2019 com os de abril e maio de 2020. Nesse último período, os indivíduos tiveram três vezes mais chances de apresentar transtornos de ansiedade, depressão, ou ambos, com mais de um em cada três indivíduos apresentando um ou ambos os transtornos.


As medidas adotadas ao longo da pandemia foram necessárias para evitarmos um problema maior, como uma crise na saúde, sem assistência adequada. No entanto, não podemos deixar de pontuar que o confinamento, as incertezas e o futuro incerto foram e são fatores de estresse.


O estresse, associado a outros fatores, como risco de doenças, problemas econômicos, confinamento, aumento do convívio familiar, medo de ficar doente, abuso de álcool e solidão, funciona como estímulo ao sistema nervoso central, que pode não reagir adequadamente e desencadear, principalmente, sintomas de depressão ou de transtornos de ansiedade.


A relação entre estresse e o funcionamento do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) parece estar diretamente ligada ao aparecimento de transtornos de ansiedade. A desregulação do eixo HPA é parcialmente atribuível a um desequilíbrio entre receptores de glicocorticoides e processos inflamatórios. Isso indica que ambientes sociais e físicos têm um enorme impacto em nossa fisiologia e comportamento, e influenciam o processo de adaptação a novas situações.


O estresse atua no eixo HPA e na ansiedade, e nossas experiências mudam o nosso cérebro e nossos pensamentos (ou seja, muda nossa mente). Podemos alterar nossa neurobiologia para melhor ou para um sofrimento mental. O estresse da vida pode levar a mudanças permanentes no eixo HPA e ao desenvolvimento de transtornos de ansiedade na idade adulta!!




O que fazer?


Não devemos exagerar na busca de informações. Além de várias fontes sem respaldo científico, há uma avalanche de notícias na mídia sobre a Covid-19, que só aumentam a ansiedade, a hipocondria e abrem a oportunidade para quadros psiquiátricos, como a depressão.


Temos, então, que conversar, ler e nos informar sobre outros temas também. Por exemplo, trabalhar online, estudar e fazer atividade física regularmente são excelentes ferramentas para manter a saúde mental.


Para ajudar, listei 10 estratégias para enfrentar a ansiedade associada à pandemia e, também, a inevitável volta gradual às antigas rotinas:


1. Evite a automedicação ou o uso exagerado de ansiolíticos

É muito ruim manter uma medicação sem acompanhamento e, pior ainda, mudar a dose ou interromper o uso sem orientação. A crise pode ser também um ótimo momento de iniciar um atendimento psicoterápico, mesmo que seja por teleatendimento.


2. Tente entender o que você pode e o que não pode controlar

Durante a pandemia, muitas pessoas sentem que perderam o controle sobre as suas vidas. Essa sensação pode ser muito desconfortável. Neste momento de incertezas, tente basear suas decisões em fontes confiáveis de informações e diretrizes. Leia bons artigos sobre como voltar ao trabalho presencial ou continuar trabalhando a partir da residência. Reconheça e aceite, porém, situações que você não pode controlar.


3. Perceba no que a sua situação difere da condição dos outros

Aceite que, por exemplo, se você tem mais de 60 anos, doenças pulmonares ou outras situações de risco, você terá mais restrições do que você desejaria.


4. Dedique-se a atividades gratificantes

Provavelmente, você não vai ficar tão bem dedicando-se somente ao trabalho e às tarefas

de casa. Procure atividades que te proporcionem prazer, brinque com seu filho, ouça música, exercite-se da forma que for possível, faça trabalhos manuais com pintura e tenha momentos para si mesmos, como meditação, leitura e relaxamento individual.


5. Não se isole

A regra fala em distanciamento social, não isolamento social. Telefone, faça videochamadas com seus familiares e amigos. Se possível, ajude pessoas que, por problemas de saúde, não devem sair de casa.


6. Respeite a sua retomada

Os restaurantes estão abertos, bem como os shoppings e as ruas de comércio. Mas não se sinta pressionado a participar de atividades que julgar desconfortáveis para você. Exponha-se gradualmente às atividades. Vá no seu ritmo!


7. Preocupar-se é normal

Reserve um horário para isso. Aceitar as preocupações e a ansiedade como parte da vida pode ajudá-lo a não se sentir “anormal”. Tente escrever suas preocupações em um caderno ou

uma agenda, isso torna seu pensamento mais lento, focado e eficiente, além de dar uma perspectiva externa e mais clareza de entendimento da questão.


8. Evite o consume de álcool em excesso e/ou o uso de drogas recreativas

Na quarentena, muitas pessoas se voltaram para seus métodos habituais de lidar com o estresse e a solidão, como o álcool e as drogas. Em um cenário de isolamento social, com menos interação com colegas e familiares, é muito fácil perder o controle! Tome cuidado!


9. Mantenha bons hábitos de sono e higiene alimentar

Faça uma agenda de horários para tudo – lazer, trabalho, refeições, ginástica e sono. Tente acordar sempre no mesmo horário e manter o ciclo sono-vigília, mesmo que não tenha de levar os filhos na escola ou ir para o trabalho. Evite telas iluminadas na última meia hora antes de dormir e bebidas com cafeína à noite.


A alimentação saudável é um ponto importante e não deve ser esquecido. Um cardápio regrado

evita outras complicações do confinamento, como a obesidade.


10. Não se esqueça de fazer atividades física e intelectual.

Poucas pessoas têm consciência que, para uma boa saúde mental, é fundamental uma boa saúde física. Fazer atividade física regularmente, seja yoga, alongamento, uma leve musculação, e, quando possível, uma caminhada ou uma corrida, nos ajuda a manter um cérebro

saudável. Da mesma forma, a atividade intelectual, como ler, assistir filmes, falar de diferentes assuntos, realizar atividades prazerosas, estudar ou trabalhar online, mantém nossas mentes ativas e saudáveis.


Um insight bônus:

Uma crise é sempre um momento de aprendizado, e estamos todos aprendendo. Por exemplo, notamos que já estão alterados os conceitos de higiene, a valorização do investimento em ciência, educação e saúde, o respeito aos profissionais de saúde dedicados, maior incentivo ao uso das mídias digitais para trabalho, estudo e contatos sociais, e a necessidade de uma organização melhor da sociedade.


Toda crise traz a oportunidade de melhorarmos e evitarmos novos problemas.


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