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  • Dra. Cláudia Klein

O vírus e o cérebro

É importante ressaltar que a Covid-19 tem sido cada vez mais reconhecida como uma doença sistêmica, que afeta muito além das vias respiratórias. O vírus entra no organismo ligando-se a um receptor de entrada, que é encontrado no pulmão e em outros órgãos, como o cérebro.


E, por isso, as consequências cognitivas e comportamentais podem ocorrer de duas formas: uma delas é por mecanismos biológicos, como invasão direta do vírus no órgão. Essa invasão acontece a partir da cavidade nasal e rinofaringe, através dos nervos trigêmeo e olfatório, ou passando pelo trato respiratório baixo, por meio do nervo vago.


Além disso, a chamada neuroinvasão pode ocorrer também pela corrente sanguínea. Neste caso, o vírus transportado pelo sangue pode cruzar a barreira hematoencefálica, uma estrutura responsável por proteger o sistema nervoso central, e, então, chegar ao cérebro.


A outra forma ocorre por mecanismos de ativação imunológica e pode demorar mais tempo. Muitas vezes, os efeitos comportamentais ocorrem apenas depois de alguns meses da infecção primária. Isso se deve a um mecanismo conhecido como priming, uma espécie de sensibilização do sistema imune.


Em linhas gerais, o priming é definido como um processo pelo qual uma condição antecedente ou exposição anterior potencializa a resposta do sistema imunológico a um estímulo subsequente, envolvendo uma cascata de mudanças funcionais e na morfologia celular.

É claro que a pandemia não afetou a saúde mental da população da mesma forma e nem ao mesmo tempo. Algumas pessoas podem, por exemplo, ter manifestado sintomas psiquiátricos, ou mesmo transtornos mentais, ao longo das ondas anteriores à chamada quarta onda - discutida no último artigo. Da mesma forma como aqueles indivíduos que tinham diagnóstico de transtornos psiquiátricos podem ter recebido menos cuidados no momento da terceira onda.


Podemos inferir a importância dos aspectos da saúde mental no momento pós-infecção ao olharmos para epidemias anteriores, como a de síndrome respiratória aguda grave (SARS), que ocorreu em 2003. Um estudo demonstrou que as pessoas se consultaram três vezes mais com psiquiatras do que com infectologistas, e duas vezes mais do que com seus próprios médicos de família, no ano após a infecção.

Esta epidemia oculta de transtornos mentais tem um potencial extremamente preocupante para a sociedade, tanto do ponto de vista da saúde individual quanto para a saúde coletiva. A quarta onda pode diminuir o bem-estar psicológico, afetando áreas extremamente importantes da vida, como o sono e a sexualidade.


Poderá haver um aumento na incidência de novos casos de transtornos mentais na população geral, mesmo em quem antes nunca havia manifestado qualquer sintoma psiquiátrico. A razão para esse fenômeno perpassa pela compreensão moderna da origem dos transtornos mentais, que indica que o seu surgimento depende de mecanismos complexos.


As alterações no funcionamento dos circuitos cerebrais são afetadas pela interação da exposição a estressores ambientais, e também dependem de uma suscetibilidade biológica do próprio indivíduo, que, muitas vezes, é determinada pela genética. Além disso, por um fenômeno chamado de epigenética, os fatores ambientais podem ainda alterar a expressão dos genes.


Então, a exposição de grande parcela da população a condições ambientais extremamente desfavoráveis, como é o caso nesta pandemia, pode desencadear transtornos mentais, mesmo em indivíduos com genética menos suscetível!


Isso explica o potencial epidêmico para alterações de saúde mental pós-pandemia. Esse aprendizado foi acumulado em estudos que acompanharam a saúde mental das comunidades após pandemias anteriores e desastres internacionais de grandes proporções. Entretanto, é preciso ressaltar que a Covid-19 nos coloca frente a estressores de magnitude nunca enfrentados em escala global.

O distanciamento social alterou os padrões de comportamento da sociedade, com o fechamento de escolas, a mudança dos métodos e da logística de trabalho e de diversão, minando o contato próximo com as pessoas, algo tão importante para a saúde mental.


O convívio prolongado dentro de casa também aumentou o risco de desajustes da dinâmica familiar. Somam-se a isso às reduções econômicas e ao desemprego, que pioram ainda mais a tensão sobre as famílias. Por último, as mortes de entes queridos em um curto espaço de tempo, juntamente à dificuldade para realizar os rituais de despedida, podem dificultar a experiência de luto, impedindo a adequada ressignificação das perdas e aumentando o estresse.


No entanto, o número de levantamentos que leva em consideração os transtornos mentais em decorrência de infecções por coronavírus ainda é baixo. É nítido o aumento de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático na população - mesmo excluindo-se os sintomas psiquiátricos diretamente decorrentes da infecção pelo vírus, do tratamento instituído (por exemplo, corticoides em altas doses podem induzir quadros de transtorno de humor), ou do desconforto (como a incerteza e a solidão do paciente em quartos hospitalares ou UTIs com isolamento).


Vale, portanto, um alerta aqui: há uma baixa qualidade nesses estudos iniciais! Os desenhos das pesquisas atuais indicam apenas correlação, e a seleção amostral impede adequada avaliação das potencias variáveis, o que pode confundir os resultados. Mas, com certeza, estes são impactos que serão estudados profundamente ao longo dos próximos anos.


Apesar de ainda não possuirmos muitos dados científicos, a minha sugestão é: cuide da sua saúde mental! Procure se alimentar de forma saudável, faça algum exercício (nem que seja polichinelos no seu quarto), mantenha contato com pessoas queridas diariamente e converse. Ponha para fora seus sentimentos, angustias e medos. Peça ajuda. Você não precisa enfrentar essa pandemia sozinho!


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